domingo, outubro 19, 2003

ABORTO


Após uma discussão na mailling-list dos Mão Morta sobre o Aborto na qual tenho participado, o Adolfo Luxúria Canibal mandou este email que partilho convosco:

Olá!

(...) Eu votei 3 vezes na minha vida: a primeira, quando fiz 18 anos, para ver como era, não me lembro já que tipo de eleições eram, se votei em alguém ou se me limitei a ir desenhar um caralho; a segunda, na primeira eleição de Mário Soares para Presidente da República, contra Freitas do Amaral; a terceira, no referendo ao aborto, em que fui de Lisboa a Braga (local onde estou recenseado) de propósito, ida e volta no mesmo dia.

A legislação portuguesa sobre a interrupção da gravidez é uma vergonha, digna da obscurantista Idade Média, quando a Igreja punha e dispunha do imaginário das pessoas. Só tem comparação com as leis das mui católicas
Irlanda e Polónia, o que já de si diz tudo!...

A questão do aborto é uma questão estritamente feminina, prende-se unicamente com a liberdade da mulher em dispôr do seu corpo (eu, enquanto ser masculino, não me deveria sequer pronunciar sobre o assunto, fosse em simples opinião fosse em referendo, porque nada sei sobre o sofrimento feminino ou sobre a dolorosa opção que é para uma mulher a prática do aborto - só o faço porque, numa sociedade falocrática como a nossa, em que os homens se arrogam o direito de em tudo intervir e tudo decidir, essa prerrogativa está ao meu dispôr e eu amo demasiado as mulheres para a não
utilizar ao seu serviço, no sentido de lhes restituir a liberdade que os homens lhes usurpam: a de serem donas do seu corpo!). Juridicamente, um óvulo fecundado não é um ser vivo, é quando muito uma potência de ser vivo, um nascituro, e só enquanto tal lhe são atribuídos direitos, condicionados, suspensos, até que se verifique o facto que os torne efectivos - o nascimento. Toda a campanha contra o aborto baseada num pretenso 'direito à vida' é, nesse sentido, uma falácia, tanto mais ridícula quanto os que defendem o direito à vida a propósito do aborto se não são os primeiros a defenderem a pena de morte como sanção criminal pelo menos estampam um silêncio cúmplice a esse propósito, como é o caso da Igreja Católica. Ou seja, à falácia juntam a hipocrisia!

O aborto não é um método contraceptivo e a sua legalização não o transforma em tal, bem como não o torna obrigatório para ninguém - se uma mulher numa situação de gravidez indesejada, por motivos morais, filosóficos ou religiosos não quer recorrer ao aborto, não é por o mesmo estar legalizado que ela é obrigada a fazê-lo, bem pelo contrário, ela é livre de utilizar o seu corpo como bem entender e de guardar a futura criança se assim o desejar. Mas se uma outra mulher na mesma situação, mas que não partilha os mesmos sentimentos morais, filosóficos ou religiosos, pretender recorrer ao
aborto, ela pode fazê-lo em condições de higiene e segurança. Isto é ter respeito pela mulher e pela liberdade das suas opções! Não é o que se passa actualmente, com a lei em vigor, em que em nome de retóricos princípios de 'direito à vida' uns cabotinos eclesiásticos e fascistóides tentam impôr um comportamento padrão, controlando o que é da esfera do íntimo e do privado, mas que longe de atingir os seus objectivos só envia para a clandestinidade as mulheres que recorrem ao aborto, com os consequentes riscos de morte ou de prisão.

Eu tinha 17 anos quando uma das minhas melhores amigas e colega de classe morreu na sequência de uma infecção generalizada subsequente à prática de um aborto clandestino. O seu namorado, também um amigo meu embora menos
próximo, que a acompanhou à parteira e que a levou ao hospital quando se tornou evidente que algo estava mal, foi julgado e condenado a uma pena de prisão, que cumpriu, por cumplicidade na prática de aborto. Desde então perdi a conta às amigas que acompanhei a desmanchos, sempre de coração cerrado, torcendo para que tudo corra bem (eu próprio participei num, como conto numa crónica do "Estilhaços") - não é a proibição e a criminalização que impedem o aborto, só o tornam escusada e estupidamente perigoso!

Resumindo, tudo o que possa ser feito para acabar com uma lei iníqua e vergonhosa, venha de onde vier, tem o meu apoio descarado e incondicional. É um princípio que nem sequer discuto, estamos entendidos?

Um abraço


Adolfo Luxúria Canibal


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1 Comments:

At 23:04, Anonymous Roberta Frontini said...

ADOREI! Espelha EXACTAMENTE o que eu acho! Parabéns!

 

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